terça-feira, 20 de junho de 2017

20 de Junho


Quando eu me lembro daqueles dias, eu ainda consigo nos ver descendo a Rua da Glória com nossos punhos cheios de sonhos, a rua e os dias eram realmente gloriosos.Todas aquelas manhãs de domingo onde víamos a vida nascer muito maior do que nós no Bairro da Liberdade, que nos tornou tão livres quanto podíamos ser, nos tornou tão fortes quanto podíamos nos tornar e nos ensinou que certas coisas não se aprende até que se viva.
Nós demos toda a nossa adolescência a um lugar chamado Liberdade e, ironicamente, passamos todos os domingos do inverno dos nossos 16 anos tomando uma bebida quente em frente a Igreja dos Aflitos. E bem acima das nossas cabeças, sempre houve uma indicação óbvia sobre a vida: a liberdade e o paraíso ficam em sentidos opostos.
Hoje eu sou livre, mas morro de inveja sempre que penso que você preferiu o paraíso à liberdade.
Aqueles dias nunca mais irão voltar e, se voltassem, não seriam mais aqueles dias. Mas o tempo todo eu estive torcendo por você, o tempo todo eu estava gritando dentro da minha cabeça com todas as minhas forças mas, pela primeira vez na vida, eu não estava gritando por você, eu estava gritando para você: boa viagem!
Feliz aniversário...

sábado, 10 de junho de 2017

Fūrin*


Eu ainda me vejo andando sozinha por essas ruas estreitas e iluminadas em que eu costumava andar com você, e eu me lembro claramente das lanternas penduradas e do barulho que fazia quando os sinos dos ventos se moviam anunciando o verão. Você se lembra das tardes no Sukiya? Ainda é igual, mesmo depois de todos esses anos.
Agora eu irei viver nessa ilha bonita, onde no inverno faz muito frio à noite e o branco da neblina cresce atrás das montanhas que me separam do continente. Eu não consegui dormir bem durante muitas noites, eu não consegui dormir porque tudo desaparecia quando eu fechava os meus olhos.
Um dia, de repente, tudo mudou de lugar, eu senti que meu coração deixou de ser jovem, mas o perfume daqueles dias passados ainda passa por mim, embora o mundo tenha virado ao contrário e você esteja do outro lado do planeta, eu ainda me lembro claramente das lanternas penduras e do barulho que os sinos dos ventos faziam, era início de verão quando você se foi. E eu, na verdade, eu não quero esquecer, mas eu não posso abraçar uma lembrança e, seis anos depois, ela começou a desaparecer. Eu apenas penso e penso, eu estou apenas tentando lembrar.



*風鈴 significa literalmente “Sinos de Vento”

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Sampa



“Não sei que sentimento é esse que faz com que se amem as pedras das calçadas. São Paulo nada tem fora disso. Só as pedras das calçadas. No entanto, duvido que haja na terra agarramento maior por um trecho de chão do que o que sentimos por nossa cidade.” 
Oswald de Andrade




Detesto quando chega Junho, porque Junho nos últimos 4 anos só me traz ansiedade, saudades e vontade de voltar para casa.
Junho me lembra que meu aniversário bate a porta, mas que a minha verdadeira porta está bem longe daqui, Junho me faz sentir saudades de cada mísero detalhe de São Paulo, Junho me faz lembrar que eu estou brincando de viver, mas já faz muitos meses em que eu não respiro, porque São Paulo é por onde as pessoas respiram, apesar da poluição.
Eu odeio o aperto que eu sinto no peito quando começo a contar os dias para voltar para casa, é terrível fechar os olhos e lembrar de todos os lugares que eu queria estar. Nunca na vida eu entendi tão bem o que acontecia com o coração do Caetano ao cruzar a Ipiranga e a Avenida São João.
Eu sinto falta da luz artificial de São Paulo, do cheiro de vida toda vez que chovia na cidade, dos edifícios maiores que o céu, das ferrovias e dos trens que voam mais rápidos que aviões, da loucura que é estar vivo e correndo sem poder parar, da pressa... Ser paulistano é ter pressa pra ver e ter tudo, e não esperar nada de graça. Eu sinto falta de quando a única coisa que me separava de todas as possibilidades eram apenas algumas estações do metrô ou duas horinhas no trânsito. Sinto falta de não precisar me preocupar se é quarta ou domingo, se são oito da manhã ou três da madrugada, pois eu sempre vou ter aonde ir, porque São Paulo da uma sensação de liberdade que eu jamais consegui sentir em outro lugar, lá o cosmopolitismo é total. 
Não é como se eu odiasse Florianópolis, eu até gostei de experimentar o sul germânico e sua tranquilidade, o problema é que antes disso eu já havia experimentado a loucura em uma cidade do tamanho dos meus sonhos.
E eu sinto muita falta da loucura que é estar vivo em um lugar que tem força o suficiente para te esmagar, mas não esmaga.

Ensaio sobre ele

Eu tenho um espaço enorme no meu coração e eu tenho tanto trabalho e coisas para fazer, porque eu sou tão ocupada, mas você não é...
E eu mantenho os meus olhos em você, porque você é lindo, e eu poderia te dar o mundo, mas não poderia te fazer ficar.
Eu poderia fazer você se arrepender um dia, mas não poderia te manter aqui.
Eu poderia fazer você feliz, mas jamais poderia fazer você querer estar por perto.
Nem por todo o dinheiro do mundo, nem por todo o sul do país, nem se eu pudesse escrever para você o texto mais doce que você pudesse ler, não importa o que eu fizesse, eu nunca poderia trazer de volta uma lembrança.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Arame farpado

Eu senti vontade de me desculpar por ter arame farpado em tudo que sou, por ter tido uma pessoa ótima em minhas mãos e não saber segurar, por não saber que caminho tomar. 
Eu senti muito por ter um açúcar tão amargo, por meu alucinógeno tão fraco. Eu lamentei por não poder encher o peito e cantar pro coração dele bater mais rápido e desejei que ele me perdoasse por odiar seus hábitos, seus pulsos fracos.

...

O mais belo de pessoas intensas, inteiras e irresponsáveis é que o limite transpõe qualquer extremo. Se vai até não poder dormir por incontáveis noites, insiste até a corpo doer inteiro, se joga e cava o chão com as unhas até os dedos sangrarem, só para poder se jogar um pouquinho mais fundo.
Quem fica no raso das emoções geralmente não se machuca, não se desgasta e consegue dormir tranquilo a noite inteira. Pessoas intensas sangram, mas vivem.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Fora do lugar

Aos poucos tudo volta pro lugar, meus cadernos rabiscados no chão do quarto, o cinzeiro transbordando, o coração batendo fraquinho e a mente imperturbável de quem vivera uma situação até o limite e tem a consciência tranquila de que foi até onde pôde ir.
Aos poucos tudo se descolore, desencanta, desmancha e tudo volta ao seu lugar.

Cinco de Outubro

Eu falei tanto da tempestade, do som da chuva que silencia a minha mente e do vento que me arrastaria para longe daqui que, finalmente, a chuva começou a cair.
É a estação das flores, meu bem. O inverno acabou mais quente mas a primavera chegou molhada, numa garoa fina e constante, com uma água que molha e não lava. Não leva, não seca, mas também não nasce, e você olha para as gotas escorrendo pela janela e não esquece, é primavera e não floresce.